Do fundo do baú, O Desafio dos Bandeirantes – Um dos primeiros RPGs nacionais

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Aproveitando que hoje é o dia do descobrimento do Brasil trago a vocês uma reliquia dos anos 90 e uma das primeiras iniciativas de um RPG 100% nacional. Trata-se de O Desafio dos Bandeirantes.  


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Enfrente os mistérios da Terra de Santa Cruz e perigosas criaturas do folclore brasileiro.

Naquela época, havia poucos RPGs em português e quase todos eram de fantasia medieval. Então, três jovens autores brasileiros pensaram: Por que não criar um jogo que tenha mais a ver com a gente, com o nosso país e a nossa cultura? Foi dessa ideia que surgiu “O Desafio dos Bandeirantes – As aventuras na Terra de Santa Cruz”. Primeiro RPG com temas baseados na história e no folclore brasileiros, “O Desafio dos Bandeirantes” foi criado por Carlos Klimick, Luiz Eduardo Ricon e Flávio Andrade e publicado em 13 de Dezembro de 1992 pela editora GSA.

Esse Role Playing Game de fantasia histórica tem como cenário uma versão fantástica do Brasil Colonial chamada Terra de Santa Cruz, no ano de 1650. Trata-se de um cenário desafiador, misterioso e muito perigoso, em que os mitos e lendas do folclore brasileiro como Iara, Curupira, Boitatá, Boiúna, Mapinguari, Mula-Sem-Cabeça, entre outros, são reais.
Os jogadores interpretam humanos que devem sobreviver neste território ainda selvagem e inexplorado, tendo como desafio os perigos da selva, tribos hostis, animais selvagens e monstros estranhos. Eles podem enfrentar índios alados, feiticeiros negros e bruxos que trouxeram para a Terra de Santa Cruz as práticas místicas do Velho Mundo.
Estão em confronto povos de diferentes origens: As diversas tribos indígenas, algumas amistosas e neutras, e outras hostis com os europeus – lusitanos (portugueses), castellanos (espanhóis), francos (franceses), romanos (italianos), flandrinos (holandeses) e bretões (ingleses). Há ainda os negros trazidos da África para trabalharem como escravos e os mestiços, geralmente desprezados pelas suas etnias de origem.

Criação de personagens

quilombos da luaPara criar seu personagem, o jogador pode escolher entre as cinco “raças”: branco, índio, negro, mulato ou mestiço. As raças são essenciais para definir a classe social do personagem e a maneira como ele se enquadra na sociedade.
Estão disponíveis nove “profissões”: guerreiro, rastreador, ladrão, jesuíta, sacerdote negro, pajé, feiticeiro negro, feiticeiro de ferro e fogo e bruxo. Cada uma tem uma lista de habilidades e somente as três primeiras não envolvem magia. Para definir suas habilidades, cada jogador recebe 100 pontos para distribuir entre as características da lista da profissão, e outros 50 pontos que pode usar livremente.
Já a escolha da classe social vai na sorte mesmo. O jogador rola 2d10, um para as dezenas e outro para as unidades, e o resultado indica, de acordo com a “raça” (termo que também era aceito na época), como vai ser a família do personagem (se ele nasceu escravo, burocrata da coroa, comerciante ou lavrador, por exemplo). A classe social determina os recursos inciais e dá base para seus antecedentes e história de personagem.
Para realizar alguma ação, o modificador vai de Tarefa Rotineira (nível de habilidade x 4) até Tarefa Quase Impossível (nível de habilidade dividido por 4). Para fazer o teste, o jogador rola 2d10, se o resultado for menor ou igual ao nível da habilidade, ele conseguiu realizar o que pretendia. Se ele não tiver a habilidade correspondente, faz um teste de atributo. Neste caso, ele rola um d20. Com resultado menor ou igual ao atributo testado, ele terá sucesso.
O Desafio dos Bandeirantes - Módulo de Aventuras

O Sistema de Combate é funcional, com inúmeras possibilidades, mas também realista, sangrento e mortal. O jogo usa d10 para os testes de habilidade, d20 para os confrontos de habilidades e d6 para os cálculos de dano, que pode ser cortante ou impactante.
O estrago na armadura depende de cada tipo de dano. Com o tempo, elas podem ficar completamente arruinadas. Ou você pode aproveitar aquele (aparente) momento de paz e tranquilidade para consertar sua armadura.
A magia faz parte das manifestações características de cada etnia em O Desafio dos Bandeirantes. Os poderes mágicos, e seus usuários, são tão temíveis quanto um oponente com uma arma de fogo. Cada personagem conjurador tem uma lista de Habilidades que representam seus poderes místicos. Os feitiços são ativados pelo Poder Mágico (Inteligência+Destreza) ou Poder Divino (Sabedoria+Destreza), que aumentam com a experiência do personagem. Mau-olhado, Arco de Oxóssi, Amaldiçoar são alguns exemplos de magias do jogo. Mas realizar os feitiços neste RPG é algo complicado e ritualístico.

E o desafio chegou ao fim

Além do livro básico “O Desafio dos Bandeirantes”, a editora GSA publicou ainda as aventuras-prontas “A Floresta do Medo”, “O Engenho”, e os módulos de ambientação “Os Quilombos da Lua” e “O Vale dos Acritós”.

Apesar da iniciativa inovadora, a GSA foi prejudicada pela retração do mercado nacional de RPGs, falta de incentivos, má distribuição e, a partir de 1994, pela chegada de jogos como “Vampiro – A Máscara” e “Shadowrun” com abordagens mais inovadoras e flexíveis. Sem condições de se sustentar, a editora fechou suas portas e encerrou a produção de “O Desafio dos Bandeirantes” em 1996.
O império do sol

Em 2010, Flávio Andrade até lançou em seu blog um novo cenário para RPG: O Império do Sol, inspirado nos incas e na colonização espanhola no Peru. Mas o retorno do jogo acabou parando por aí.

“O Desafio dos Bandeirantes” pode ser considerado ainda hoje uma iniciativa inovadora. Com inúmeras possibilidades, poderia renascer e se tornar um dos maiores e mais originais RPGs já lançados no país.

Seria muito legal se o jogo fosse relançado em um formato mais moderno, com regras atualizadas e simplificadas, mais próximas dos jogos atuais. Temos competentes ilustradores nacionais que poderiam fazer ilustrações inspiradoras. O cenário e contexto histórico poderiam ser ainda melhor aproveitados e incluir as intrigas e disputas dos nobres e comerciantes da época por poder e riqueza, as invasões estrangeiras e o ciclo do ouro e da cana de açúcar, por exemplo.

Se você quiser conhecer melhor “O Desafio dos Bandeirantes” e, quem sabe, adaptar o cenário, personagens e criaturas para sistemas como Fate, Gurps ou até D20 System, os livros estão disponíveis na internet neste link  e também neste aqui. Você pode curtir ainda a página do jogo no Facebook .