Viajando: E o que devo fazer com o Cânone?

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E as minhas "viagens" voltaram! E essa aqui é especialmente para vocês que possuem seu(s) cenário(s) preferido(s),e se depararam com o mesmo problema!  

*Para quem clicou sem estar bem familiarizado com o termo, cânone, ou canon como é mais conhecido, é tudo aquilo que é pré-estabelecido dentro do universo ficcticio, seja ele uma franquia de filmes, HQs/mangás, animês, ou no nosso caso, um cenário de campanha.

Criar mundos é uma experiência que todo mestre de RPG experimenta. Não interessa se você usa um cenário pronto como Tormenta, Rastros de Cthulhu ou Reinos de Ferro. A menos que você  use aventuras prontas em sua campanha, e seus jogadores sejam os mais bem comportados do Multiverso para não sair do roteiro dessas aventuras, você irá ter que criar alguma coisa nova em algum ponto. Este artigo foi feito para ajudar você, criador de mundos, que precisa lidar com algo muito difícil: o cânone.
Vamos começar com um exemplo claro em um cenário que amei, e devorei quase todos os livros disponiveis traduzidos, mas nunca arrumei ninguém pra jogar (mais uma pra minha lista de traumas RPGisticos): Reinos de Ferro. Em Reinos de Ferro, o Império Khadorano atacou e derrotou Llael com a ajuda traiçoeira do então primeiro-ministro da nação invadida. Se na sua mesa o primeiro-ministro for um patriota que tenta desesperadamente conter o avanço khadorano, você não está seguindo o cânone do cenário. Na maior parte das mesas de jogo, o cânone não é lá muito importante, podendo ser mudado à vontade pelo mestre de jogo, seja porque os jogadores querem jogar algo diferente do que já conhece e aceitam a mudança, seja porque eles são completamente novos e não sabem nada do cenário, e por isso crê em que tudo o que você diz é verdade.



No entanto, muitos jogadores fanáticos pelos cenários de campanha e seus quadrinhos, romances e plots não suportam mudanças em relação ao cânone nas campanhas em que participam!
"Aí,mas isso não acontece agora.Na historia, essa batalha só vai acontecer quando..." Jogador chato gaga-regra
"Já está acontecendo, seu estojo de pica. Role iniciativa, ou vai levar um ataque" Eu, sem paciência pra ouvi-lo




Pode parecer mera chatice da parte deles, mas sua função como mestre é garantir que todos os jogadores se divirtam. Se você pretende mestrar uma campanha para um grupo onde há um ou mais jogadores deste tipo, não seria justo da sua parte ignorar o que é divertido para ele(s), porque algo que é mais divertido para você como mestre. E aí, é preciso lidar com o cânone.
Para a maioria dos mestres de jogo, o cânone é visto como um gesso que não os permite utilizar todo o potencial da sua criatividade. De certa maneira, eles estão corretos. O cânone estabelece barreiras para o que você pode fazer antes do jogo começar. Em Tormenta, Shivara Sharpblade é a Rainha-Imperatriz do Reinado e regente de Deheon, Yuden e Trebuck. Em Reinos de Ferro, os skorne de Vinter Raelthorne foram rechaçados na Batalha de Corvis, em Forgotten Realms, Drizzt Do’Urden é um elfo negro bondoso e herói aventureiro. Não dá para bolar um nome legal, aparência e personalidade para o Rei-Imperador* em Tormenta, por que já existe um. O livro já explorou essa possibilidade e se está nos livros é cânone.

Mas algo que muitos mestres não compreendem é: as barreiras do cânone vão ao chão quando a campanha começa!

*Que é um titulo babaca em minha humilde opinião, já que Rei e Imperador, para fins práticos, é a mesmíssima bosta !
E se Shivara for destronada por uma intriga palaciana liderada pela princesa Rhana? Drizzt pode ser levado à loucura por algum evento ("mataram minha pantera! Buaaaá! vou descontar minha raiva no mundo!!") e se tornar tão maligno quanto qualquer elfo negro. A única coisa que você deve dar aos jogadores é a oportunidade de mudar os rumos dos acontecimentos. Por mais fanático pelo cânone que um jogador seja, se ele escolheu alterar alguma coisa, seja apoiando Rhana em sua ascensão ao trono imperial, ou manipulando/amaldiçoando Drizzt e o levando à loucura, então ele se desapegará do cânone e se divertirá tanto quanto qualquer outro na mesa de jogo.
Além do mais, nem sempre seguir o cânone significa não ter nenhuma influência sobre o cenário inicial com que os jogadores irão lidar na sua campanha. Uma maneira de lidar com o cânone, criando sem ir de encontro a ele, é aproveitar o que chamam de vazio canônicoCada cenário apresenta descrições com níveis de detalhamentos variados, mas todos eles, sem exceção, apresentam vazios que podem ser preenchidos. É impraticável descrever cada personagem, cidade, masmorra e oportunidades de aventura presentes no cenário!

* Mas como Mário, 
um amigo meu, me lembrou, não é impossível. Ptolus, de Monte Cook, faz isso na sua cidade-cenário de campanha. Mas o que ele parece ter esquecido é que Cook precisou de um livro de "apenas" 671 páginas para descrever com todos os detalhes UMA ÚNICA CIDADE!!!


Agora reclame dos seus livros de faculdade, vá. Reclame!
*P.S: adorei a piada!
Mas vamos voltar ao vazio canônico.Vamos supor por exemplo, que você deseja criar um novo reino em Reinos de Ferro. Embora, seguindo a nossa dica inicial, você não possa simplesmente fazer o reino aparecer no mapa, você pode aproveitar os vazios presentes no cenário para criar as bases do que você quer fazer durante a campanha. No suplemento Guia do Mundo é citado que existem tribos bárbaras presentes no território de Immorem que nunca foram dominadas ou totalmente assimiladas por conquistadores. Isto quer dizer que no cânone existem diferentes etnias humanas vivendo nos reinos fundados de Immoren Ocidental, mas elas não são descritas em detalhes. Logo, são um vazio canônico.
Aí está a sua oportunidade para criação. Pegue uma etnia descendente de bárbaros humanos assimilados durante a colonização dos Orgoths séculos atrás, estabeleça uma identidade étnica, uma região onde vivem e são maioria, personagens importantes (heróis e lideranças políticas) e um ponto de tensão que irá desencadear um conflito de independência e pronto: você terá todos os ingredientes para que um novo reino surja em sua campanha! Note que você basicamente criou um novo reino e em nenhum momento alterou qualquer coisa do cânone do cenário, na verdade apenas reforçou um aspecto canônico que não havia sido previamente determinado, e portanto não há nada do que qualquer fã do cenário canônico possa reclamar.
Estas duas dicas principais devem ajudar com 80% dos seus problemas com o cânone enquanto mestre. Os outros 20% são aqueles envolvem os chamados jogadores-leitores. Veja bem, não há nada de errado em gostar do cânone e querer segui-lo, como já falei. Todo mundo tem o direito de se divertir como bem entender. O problema do jogador-leitor é que ele, ao mesmo tempo, quer, e não quer, jogar RPG com seu cenário favorito!

Explico melhor: nosso hobby, especialmente no gênero de fantasia fantástica, envolve interpretar um personagem heroico que deixa a sua marca no mundo com seus feitos. E não existe um meio-termo, um personagem heroico vai alterar o cenário na jornada até o final de uma campanha, e o jogador leitor não consegue lidar com isto. Ele coloca o cenário num pedestal,trata aquilo como uma obra de arte inestimável, e recusa-se a aceitar qualquer alteração nele pré ou pós inicio de campanha. Como você lida com um cara desses?
Nestes casos, sou curto e grosso: tiro o jogador da mesa. Não é crueldade. Ok, é um pouco, veja bem, a verdade é que ele não irá verdadeiramente se divertir na sua campanha, não importa o que você faça. Qualquer mudança que você faça no cenário pode gerar comentários negativos dele, o que vão irritar você e os jogadores com tamanha babaquice, ou apenas deixará ele cada vez menos com vontade de jogar. Então é melhor evitar esses pequenos desgastes constantes e "convida-lo a se retirar", como diziam meus coordenadores da escola sempre que algum aluno era expulso.
  
Este tipo de jogador só vai se divertir de verdade em campanhas com cenários caseiros. Ele vai ler tudo que o que você escrever para a campanha com um sorriso no rosto, e como você é o autor do “livro” que ele está “lendo”, irá aceitar qualquer coisa que você fizer sem reclamar (no máximo dando um milhão de sugestões de fanboy).
E  com isto encerro meus pensamentos sobre o assunto. E vocês, tem algo a adicionar? Postem a vontade nos comentários!